sexta-feira, 26 de outubro de 2012

E amanhã também



Tenho ouvido muito uma música chamada "Hey, Soul Sister". Não porque eu gosto, mas porque sempre toca na academia. E, sim, eu ando frequentando uma academia. Chocados? Eu também.
E pior do que passar uma hora da sua vida literalmente sofrendo - é só olhar em volta, naqueles aparelhos medievais de tortura, não tem um só ser humano que não esteja fazendo cara de dor; pior do que aquela maldita série de exercícios - eu tenho certeza de que o tempo na academia passa mais devagar do que no resto do mundo; pior do que a minha obsessão por desinfetar cada aparelho que eu uso; pior do que isso tudo junto ao quadrado... é a música.
Música de academia não foi feita pra ser boa. Não existem concessões no inferno. Se é pra sofrer, então vamos amargar o pior sofrimento já inventado pela civilização, desde o advento da ópera.

Pois bem, tendo esclarecido a questão, voltemos a "Hey, Soul Sister". Que é uma música deveras elucidativa para as mulheres, basta olhar o refrão.

Hey soul sister
I don't wanna miss
A single thing you do
Tonight.
A letra parece fofa e quase nos leva a crer que o eu lírico está apaixonadinho pela moça a quem ele muito singelamente se refere como "soul sister". Mas essa impressão é só para os não iniciados. Psicóticos de verdade detectam a dura verdade por trás dessas palavras.
Sim, ele acha a mocinha incrível e não quer perder nada que ela faça... naquela noite.
Percebem a artimanha?
Quer dizer, o cara fala uma coisa bonitinha e a tal da "soul sister", no auge de seu derretimento sentimental acaba deixando passar - ou pior, escolhe deixar passar - o elemento mais importante da frase. "Naquela noite".
Sim, ele gosta muito de você, queridona. Sim, você é demais e ele ri das suas piadas. Sim, a noite foi ótima. Essa noite foi ótima. A próxima... não sabemos.
É verdade, eu deveria prestar menos atenção nas letras das músicas e me concentrar mais nos abdominais. E, em geral, eu consigo fazer isso quando toca Shakira ou Lady Gaga. Meu cérebro automaticamente desliga. Mas essa música foi um achado. Me fez rever tudo o que eu sempre pensei dos homens.
Porque quando eles dizem algo equivalente ao que grandiosíssimo vocalista da banda cantou, quando eles nos elogiam ou falam coisas bonitinhas, eles não estão necessariamente mentindo. É tudo verdade, do fundo do coração.
Essa noite.
Amanhã, é possível que a declaração já tenha expirado.
Então, talvez, o certo - ou no mínimo o justo -, seria que esses nobres homens acrescentassem no final de cada frase fofa o binômio "essa noite". Tipo, "você tá linda... essa noite", "tô gostando de você cada vez mais... essa noite", "fica aqui pra sempre ... essa noite."
Né?
Mas em vez de focar neles, talvez devêssemos pensar em por que as mulheres - ou pelo menos a grande maioria delas - têm tanto problema em conviver com o fato de que algumas coisas duram só uma noite.
Talvez pela velha história de que elas se apegam àquilo que sabem que não podem ter, blá, blá, blá...
Ou simplesmente porque seria legal ouvir que alguém não quer perder nada que você faça. Amanhã também.

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