segunda-feira, 5 de junho de 2017
05 de junho de 2017
segunda-feira, 27 de março de 2017
Lápides

Ele era alheio a todo aquele ar fúnebre, um pobre homem rudimentar
de braços fortes, pele seca e palavras moderadas. Pouco se notava quando se
olhava em volta do seu mundo, era um pragmatismo impecável, seus olhos sempre
centrados pareciam só olhar para onde deviam, focados e tristes. Entre uma
pedra e outra acendia um cigarro de palha. Fumava enquanto mirava longe, eram
longas tragadas carregadas com profundos devaneios que só duravam a queima da
palha, logo voltava ao serviço.
Sempre sozinho,
uma das poucas pessoas que tinham total conhecimento da sua
condição humana, parecia não se apegar a nada, nem pessoas, nem
lugares, nem objetos.
No entanto aparentava gostar do que fazia, a cada grande pedra de mármore esculpida sempre tinha um
olhar satisfeito, e se dava ao luxo de só entalhar frases saudosas, memoráveis
e agradecidas em pedras escuras. A frase posta sobre a terra que abriga corpos
sem vidas.
Ele fazia lápides,
tomava café, ia ao bar ver os amigos as vezes, gostava de comer biscoitos de
água e sal com mel e fumava sentado sobre o tronco cortado no fundo da casa
onde habitava, lá ele podia retroceder no tempo enquanto a fumaça subia.
'' Ele espera em frente ao pequeno jornal local, tragando
fantasias e anseios. Trabalha como entregador, particularmente
detesta, mas necessidades vem sempre a frente, e apesar da fadiga sempre tem um
benévolo momento em todas as madrugadas. Exatamente na quarta rua, casa azul,
portão branco, uma moça espia entre as continhas, habitualmente algo lhe ocorre
ao ver aqueles olhos. Ela é linda.
Um flerte mútuo e
uma troca de sorrisos.
Ela caminha
compassadamente enquanto o ama e se sente feliz. O vestido branco comprido de
mangas longas e gola de renda apertada a faz suar e esconde as marcas com cor
de violência feitas pelas mãos do seu pai, ao seu lado ele mantém a postura
ereta e um olhar descontente. Entrega sua única filha nas mãos do noivo que
também sofre de calor e angustia. Ele não sabe se a amam, entretanto preza ser
o certo a se fazer depois de ter plantando uma semente no ventre da moça
dentro da sacristia.
Muitas tardes
quentes à frente a criança chega ao mundo, e logo se vai. A morte faz sua
aparição amarga, busca a alma do pequenino corpo enquanto sua mãe o agarra sem
aceitar nem entender, se desmanchando em meio a lagrimas e restos de placenta.
As pessoas em torno observam a cena sem reação, o pai caminha até o bar com um
silencio incomum, desacredita e então aceita a lagrima que cai dentro do copo
de cachaça, só uma.
A segunda lagrima
cai quando ela parte. Ao chegar em casa tarde da noite cheirando a álcool e colônia
de alfazema, se dá conta da cólera da mulher que grita, chora, e não aguenta
mais, entre amantes e drinks ele atenuava a dor e até esquecia dos dois filhos
perdidos, ela não, por isso arruma as poucas coisas que tem querendo ser impedida,
mas não é, então segue rumo ao fim.''
O derradeiro trago
é doloroso, o pobre homem apaga o cigarro com a sola do sapato, e volta, não
para onde gostaria, mas para onde deve. Ocupa seu oficio costumeiro, dessa vez
para si, fazendo mais uma vez o pó da pedra flutuar pesado em volta do seu ar,
a cada letra sua memória lhe mostra os motivos para a frase, que dará sentido a
sua vida na morte próxima.
''Diga a Marta que ainda a amo''
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