segunda-feira, 27 de março de 2017

Lápides













            Parish Church St. John Baptist - Cirencester, England:

Ele era alheio a todo aquele ar fúnebre, um pobre homem rudimentar de braços fortes, pele seca e palavras moderadas. Pouco se notava quando se olhava em volta do seu mundo, era um pragmatismo impecável, seus olhos sempre centrados pareciam só olhar para onde deviam, focados e tristes. Entre uma pedra e outra acendia um cigarro de palha. Fumava enquanto mirava longe, eram longas tragadas carregadas com profundos devaneios que só duravam a queima da palha, logo voltava ao serviço.
Sempre sozinho, uma das poucas pessoas que tinham total conhecimento da sua condição humana,  parecia não se apegar a nada, nem pessoas, nem lugares, nem objetos.

No entanto aparentava gostar do que fazia, a cada grande pedra de mármore esculpida sempre tinha um olhar satisfeito, e se dava ao luxo de só entalhar frases saudosas, memoráveis e agradecidas em pedras escuras. A frase posta sobre a terra que abriga corpos sem vidas.

Ele fazia lápides, tomava café, ia ao bar ver os amigos as vezes, gostava de comer biscoitos de água e sal com mel e fumava sentado sobre o tronco cortado no fundo da casa onde habitava, lá ele podia retroceder no tempo enquanto a fumaça subia.





'' Ele espera em frente ao pequeno jornal local, tragando fantasias e anseios. Trabalha como entregador, particularmente detesta, mas necessidades vem sempre a frente, e apesar da fadiga sempre tem um benévolo momento em todas as madrugadas. Exatamente na quarta rua, casa azul, portão branco, uma moça espia entre as continhas, habitualmente algo lhe ocorre ao ver aqueles olhos. Ela é linda.

Um flerte mútuo e uma troca de sorrisos.

Ela caminha compassadamente enquanto o ama e se sente feliz. O vestido branco comprido de mangas longas e gola de renda apertada a faz suar e esconde as marcas com cor de violência feitas pelas mãos do seu pai, ao seu lado ele mantém a postura ereta e um olhar descontente. Entrega sua única filha nas mãos do noivo que também sofre de calor e angustia. Ele não sabe se a amam, entretanto preza ser o certo a se fazer depois de ter plantando uma semente no ventre da moça dentro da sacristia.

Muitas tardes quentes à frente a criança chega ao mundo, e logo se vai.  A morte faz sua aparição amarga, busca a alma do pequenino corpo enquanto sua mãe o agarra sem aceitar nem entender, se desmanchando em meio a lagrimas e restos de placenta. As pessoas em torno observam a cena sem reação, o pai caminha até o bar com um silencio incomum, desacredita e então aceita a lagrima que cai dentro do copo de cachaça, só uma.

A segunda lagrima cai quando ela parte. Ao chegar em casa tarde da noite cheirando a álcool e colônia de alfazema, se dá conta da cólera da mulher que grita, chora, e não aguenta mais, entre amantes e drinks ele atenuava a dor e até esquecia dos dois filhos perdidos, ela não, por isso arruma as poucas coisas que tem querendo ser impedida, mas não é, então segue rumo ao fim.''

O derradeiro trago é doloroso, o pobre homem apaga o cigarro com a sola do sapato, e volta, não para onde gostaria, mas para onde deve. Ocupa seu oficio costumeiro, dessa vez para si, fazendo mais uma vez o pó da pedra flutuar pesado em volta do seu ar, a cada letra sua memória lhe mostra os motivos para a frase, que dará sentido a sua vida na morte próxima. 



''Diga a Marta que ainda a amo''





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