quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Menphis


Vejo ela sentada ali olhando para o próprio tempo, é ate engraçado, sabe, essa auto-destruição é invejável! Ela parece tão tranquila quando sorrir, mas, agora ela não tem muitos motivos, só se perde, está tão distante, queria poder tira-la dali, mas se eu me aproximar, ela pula.
A vida é complicada, eu sei, as vezes até demais, e quem vamos culpar? precisamos culpar alguém! colocar essa responsabilidade em cima de si é suicídio. Por isso constantemente nos enganamos, para sermos mocinhos da própria história, temos sempre boas justificativas para nossos atos, as vezes até acreditamos nelas, tomar consciência dos nossos desacertos é tão raro, quem tem ta amargando viver com a realidade dura de ser exatamente o que é. A moça sentada ali no parapeito do prédio deve ter isso, me sinto um intruso, o momento era só dela. 
- Ter plateia torna tudo mais difícil não é mesmo?
Ela não me responde mas me encara por cima do ombro, seus olhos desesperados são lindos. 
- Eu não vou impedir você de pular, se é o que está pensando, mas me interesso muito em saber o porquê de estar ai, deve ser uma boa história, não morra sem contar. Tento alcançar um tom descontraído e me sento enquanto digo, esperando outra reação, então ela chora.
- Com plateia é mais difícil sim, não quero envolver você, pode me dar licença?
Ela me diz com a voz arrastada.
- Ah! mil desculpas mas á estou totalmente envolvido, inclusive, curioso em saber por que alguém com olhos tão lindos cometeria suicídio.
Nenhuma reação. 
- Ok então você não quer falar sobre isso, entendi, gosta de musica clássica?...

                                                                    ***
Ela talvez esteja imersa demais nas profundezas de si mesmo, ambiciona a morte , porém, exita, devem ter motivos para continuar, amor por si acho que não resta, da pra ver pela forma como está vestida, já vi mendigos em trapos melhores, os cabelos curtos estão mal contados, grandes olheiras dão ao seu rosto um ar cansado, sua expressão é melancólica. No entanto, ela continua bonita, não me parece ser alguém ruim, mas pouco sei e o silêncio é constante.
Então ela bruscamente se vira de frente pra mim, por um instante penso que está pulando, porém, ela se firma e me olha mais uma vez e me analisa cuidadosamente.
- O que veio fazer aqui? Ela pergunta.
- Salvar você. Risos.  Na verdade sempre venho aqui, moro dois andares acima do seu, já me viu antes con...
-  E por que vem aqui?
- Não sei lhe explicar ao certo moça, só gosto mesmo.
- Memphis... meu nome.
- É eu sei... como a cidade do antigo Egito.
- Sim, mas se escreve com ph e sem acento, como a norte americana.
- É um lindo nome, o meu é Astolfo, e acho que tenho mais motivos que você para morrer.
Ela rir. e o silencio fica raro, fico com medo toda vez que sopra um vento forte, mais ela não parece disposta a sair dali, pergunto se ela quer um café, ela desconfia e então aceita. Desço até meu apartamento com o receio de não encontra-la ao voltar,  ligo cafeteira, e por incrível que pareça só consigo pensar na minha própria existência, café pronto, subo novamente, o céu já está escuro, a moça não está mais lá, corro até o parapeito para vê onde o corpo caiu, deixo o café pelo caminho, nem sinal. olho em volta, ''era aqui mesmo? Isso aconteceu?'' me pergunto. Contudo a unica presença  é a minha, me sento no mesmo lugar onde a jovem se encontrava, meu nome na verdade é Felipe, ela sabia.

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