quarta-feira, 8 de julho de 2015

Acorda Julia! - parte três



''Morrer é tão natural quanto nascer. Mas todos têm medo. Apavoram-se. Debilmente, tentam aplacar seu toque''.

                     

Sempre me perguntei qual sensação sentimos pouco antes de morrer, imaginava algo único, afinal só se vai uma vez, no entanto, agora deitada aqui sobre meu sangue neste chão frio, sinto apenas ódio e dor. Alguém sem nenhum motivo aparente, tirou a vida de quase todo mundo que veio até este lugar, incluindo Amanda, minha melhor amiga, esse mostro, ao qual eliminei com minhas próprias mãos, não representa mais perigo, não me sinto melhor por isso, na verdade a partir deste momento sou igual a ele, '' uma assassina'' isto é aterrador.
Ponho-me de pé e caminho sobre o solo gélido, sinto cada pequena sensação que o ambiente gera o vento, os relevos de onde piso, os sons que ecoam da mata e talvez algo mais, tão viva como nunca estive.
Chego ao local onde ficam as piscinas e encontro os primeiros corpos, uma garota e dois rapazes amarrados juntos no chão, uma delas com um corte profundo no rosto, todos com furos de balas no centro da testa, na piscina outra garota boia envolta em seu sangue, mais adiante outro cadáver caído, como quem lutou em vão, quase totalmente nu me fita.
Como um homem seria capaz de tal atrocidade? Não, nenhum homem seria capaz de tudo isso, não sozinho, ''meu Deus!'', corro os olhos em todas as possíveis direções, '' não é possível! Esse pesadelo nunca acaba''. Em choque fico parada por tempo demais, ouço vozes vindas da casa.
- Cara vem cá ver, achei ele!
- Puta merda! Mataram o imbecil.
- E ainda temos duas vadias vivas por ai, Ei alguém vai ter que falar com a mãe dele Bill.
- Isso agente resolve depois, vamos avisar o Pedro, e caçar as vagabundas.
- E os corpos?
- Depois! Puta que pariu você é burro mesmo!...
Coloco-me entre os mortos na esperança de não ser vista, passam por mim dois grandes homens, um deles reconheço como o caseiro, rumam em direção ao levantado de madeira nos fundos.
''Adelaide está viva'', tenho que busca-la e sair dali, entro de novo na casa e caminho em direção ao banheiro em que a deixei, transporto-me até lá, mas nada, não está ali, uma mão aperta meu ombro cortado, olho pra traz assustada.
- Eles acabaram de sair. A voz diz. Levaram as chaves dos carros, estamos pressas aqui. Ela chora.
- Calma Adelaide estou tão feliz que também esteja viva! Abraço-a.
- Ainda tem mas duas garotas. Ela chora mais ainda.
- Como? Aonde?
- Na cabana do caseiro, lá nos fundos, Bianca e Marcela.
- Bem, nós vamos busca-las.
- Você está maluca?
- Nós só não temos mais escolhas, pelo menos nenhuma tão digna.
- Tem uma arma aqui, na sala, vi logo que cheguei, não sei se tem balas.
- Sabe atirar?
- Não, mas como você disse, não temos escolhas.
Encontro uma espingarda na sala pendurada sobre a parede, sem balas, com ajuda reviro as gavetas, os armários...
- Isso aqui se parece com balas? Pergunta-me.
- Sim são balas, só tem essas duas?
- Quatro.
- Tem pelo menos três homens lá fora, e nenhuma de nós sabe atirar, mas eu jogava vídeo game.
- É melhor que nada. Rimos.
- Esperamos ou vamos até lá?
- Odeio esperar.
- Eu também.
Antes de sair, dessa vez, troco às roupas molhadas. Nem temos um plano, nunca fui boa em cumpri-los, entretanto, nasci com um talento que eu chamo de '' saber dançar conforme a musica''. Não sei se ela tem o mesmo, contudo, é burra como eu e vai junto, com um pé de cabra em mãos.
Na calada da noite marchamos passos mansos, mal sinto meu braço que ainda arde por conta da adrenalina que corre em mim, seguida por Adelaide me aproximo do casebre, caminho por detrás das árvores, cautelosamente. Então avisto o primeiro torço tétrico, parado em frente à penosa construção, despercebida miro seu corpo robusto, respiro fundo apoio à arma em meu ombro bom e me preparo pra o solavanco, '' pronta?'' um estouro, sou jogado pra traz.
- Na mosca no meio do estomago. Adelaide fala enquanto me ajuda a levantar. Vem vamos sair daqui!
Corremos, homens gritam, olho sobre o ombro, carrego a espingarda novamente, um deles corre em nosso encalço, adentro o arvoredo. Mas cadê a garota? Olho outra vez a retaguarda, e vejo-a lutando para se livrar das garras do ferino sórdido, Tiros em minha direção, ela berra por ajuda, enquanto é sufocada, luta, desesperada não sei o que fazer, por impulso, ignorando os projéteis tento chegar até ela, sou atingida em cheio na coxa, mais uma vez caio de ''sangue quente'' ainda me ponho de pé, empunho minha amiga e miro meu alvo mais fácil. Outro estouro, outra queda, só que dessa vez ao tentar me levantar recebo uma pancada contra a cabeça, perco a consciência.


                                                                  ...


A quarta é a ultima juro.

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