domingo, 31 de janeiro de 2016

Diante de Mim I




É uma sensação ruim, sabe, a carne dói, mas por dentro a dor é maior. O vidro estilhaçado corta, mas as palavras. Ah! Elas ferem a alma. O sangue é talvez em si mais reconfortante, do que as lagrimas pesadas, carregadas com os piores sentimentos.

Nua, encaro meu reflexo no espelho, nem de longe consigo ver uma figura agradável, cabelos desgrenhados, e aqueles olhos que combinam perfeitamente com o sangue que escorre sem pausas. Em tons de carmim tinjo a água que desce do chuveiro, vejo junto a ela parte de mim escorrendo pelo ralo.

É aquela incrível sensação de não saber oque fazer que bate a porta novamente, desavisada eu a deixo entrar, ofereço chá, mas ela prefere doses amargas de café.

- você já pensou em morrer? Ela pergunta.

- na verdade sim, mas eu acho que há outras escolhas.

- olhe para si, você não deve continuar, vai ser bem pior ficar aqui.

- eu queria tentar...

- UMA COVARDE NÃO SERVE MORRER É O CERTO, MAS LHE FALTA CORAGEM, ME DAR NOJO! Exaltada ela grita.

Se eu queria morrer? Eu queria mesmo, eu queria muito, mas vocês sabem como um corte dói, como se afogar é agoniante, como pular de um prédio exige coragem. Coragem, ela estava certa, eu não a tinha, eu sentia medo de tudo, o tempo todo, era prisioneira na carceragem que eu mesma construí.

Desde criança eu sempre tive receio de brincar do lado de fora, era, e sou sem delongas uma conformista, e otimista o bastante pra ver lado bom das minhas covardias.

Mas um dia eu resolvi sair, e nesse maldito dia eu perdi e ganhei mais de mim do que eu esperava.

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