segunda-feira, 18 de abril de 2016

Agnes


Ele nunca tinha sentido algo parecido, por ninguém, nem vivo e muito menos morto. Entretanto parado ali diante daquele corpo imóvel um sentimento lhe recobria, sem saber explicar ao certo do que se tratava imaginou estar preso em mais um delírio, que costumavam acontecer quando o sono estava próximo, ultimamente o cansaço era recorrente nas horas mais inapropriadas.
Alfredo era investigador da polícia a pouco mais de seis anos, e estava bem acostumado com aquele tipo de cena mórbida, um corpo estirado no chão coberto de sangue, tão rotineiro quanto tomar café pela manhã. Aprendeu a enfrentar esse tipo de situação com a frieza de um bom profissional.
Mesmo assim ao ver aquela garota algo interno lhe ocorreu. Mais ou menos dezoito, pele morena, porém pálida, por volta de um metro e sessenta, rosto bonito, sem duvidas, mas não de uma forma convencional. Parecia dormi na calçada daquela rua pouco movimentada. O sangue coloria sua blusa florida um pouco abaixo dos seios, seus dedos apertavam uma pequena florzinha amarela, usava além da blusinha uma saia brilhante cor de vinho que se agarrava na cintura e descia solta até o fim da coxa. Estranhamente achou uma cena bonita, como algo propositalmente montado por um diretor de fotografia. Mas aquilo não era um filme, lamentou em pensamento.
- E então? Perguntou ao rapaz que há alguns instantes se colocará ao seu lado.
- Provavelmente latrocínio, dois tiros no tórax, a senhora que informou a polícia mora aqui em frente, escutou alguns gritos, os tiros, não chegou a ver nada, mas ligou logo em seguida.
- Algum meio de identificação?
- Nada, sem documentos, nenhum curioso reconheceu, sabe Alf você precisa mesmo dormi, cuido de tudo por aqui.
O investigador passou mais alguns segundos a contemplar o corpo, até decidir acatar o conselho.

Dois dias após o crime uma moça alta magra e meio amarela entra na delegacia. Catarina reconheceu o corpo de sua colega de quarto Agnes, chorava muito ao prestar depoimento, nem eram amigas ela relatou, apesar de dividir a mesma casa, a defunta era sempre muito fechada, gostava de ver tv, comia muita comida congelada, e dormia pouco, não costumava conversar mais que o necessário. Ao ser interrogada sobre a provável causa da morte de Agnes , Catarina contou que ela não parecia ter inimigos, no entanto tinha o péssimo hábito de andar por ai tarde da noite" ela parecia não ter medo de nada, sério mesmo! Uma vez pegou um rato pelo rabo com as próprias mãos enquanto eu gritava e o colocou pra fora com muita calma".
 Após falar tudo que sabia sobre a defunta, até os detalhes menos relevantes a moça amarela sai da delegacia, caminha até a confeitaria e compra bolinhos, antes de retornar para casa.

O caso era aparentemente simples, e Alfredo estava disposto a investigar com minúcia aquele crime, talvez porque tenha sentido afeição pela defunta misteriosa, ou porque algo lhe incomodava bastante naquele caso, seria pela vítima tão jovem, ou então por ser um alvo tão vulnerável quanto gazelas em campo aberto, sem família ou amigos próximos, a moça se mantinha a margem de uma sociedade globalizada sem grandes esforços, dúvidas pairavam no ar, isso era excitante para sua profissão e mesmo assim muito triste. Uma imensa vontade de tê-la conhecido viva crescia, um sentimento um tanto vergonhoso ele admitia para si mesmo, estava interessado pela defunta.

Luís Carlos 63 anos, entra as vinte e uma horas e quatorze minutos na delegacia, se senta em uma cadeira de espera, retira uma carta do bolso coloca sobre o colo, saca um revolver calibre trinta e dois, o mesmo que perfurou a jovem Agnes, encosta o cano do metal frio um pouco acima de sua orelha, e antes de ser impedido pesa mais uma vez o dedo sobre o gatilho.

"Minha vida nunca teve la muito sentido, em todos esses anos não consegui justificar essa existência, mesmo assim fui normal ate meus 33 anos. Matei pela primeira vez e senti um prazer descomunal, desde então tenho me saciado do desespero alheio, todas as vítimas estão enumeradas no verso da carta, não precisa me agradecer por facilitar seu trabalho. Tudo corria 'muito bem obrigado' me gabo de sempre escolher boas pressas, e não encare como uma ofensa, mas vocês nunca me pegariam se assim eu não desejasse.
Eu bebia na varanda de casa quando ela passou mais uma vez por mim, já sentia atração nela a muito tempo, todavia era um alvo maior que as que já possuí. Naquela noite seria diferente, coloquei meu revolver na cintura e a segui. Vi ela caminhar sem pressa pelas ruas. Vi ela rir e passar a ponta dos dedos pelas texturas das paredes, ficar na ponta dos pés para pegar flores no jardim da igreja, empurrando-se contra as grades para alcança-las, e entrar na rua perfeita para morrer. Foi quando tomado pela euforia apontei a armar em sua direção e ordenei que parasse, ela obedeceu , me aproximei e disse para que me acompanhasse, como se não houvesse escutado oque falei ou somente ignorando tudo olhando nos meus olhos perguntou meu nome, irritado eu ameacei atirar, não se intimidou, perguntou mais uma vez meu nome, ela não parecia assustada como deveria estar. Na verdade em nenhum momento pareceu temer a morte, eu atendi ao pedido, então a desgraçada riu e falou em um tom debochado 'seu Carlos você é um velho miserável e nojento' cuspiu em meu rosto e gritou isso muitas vezes o mais alto que podia, meu dedo pesou sobre o gatilho, ela caiu morta, não houve prazer dessa vez. Desde então não consigo mais ficar vivo, morri um pouco de mim em cada vida que tirei, e acabei com meus dias junto aquela moça de olhos sem medo. “É hora, o diabo me espera”.

Ao terminar de ler Alfredo pousa a carta sobre a mesa, e vai até a maquina de café, coisas explodiam no seu interior. Duas quadras dali no necrotério Agnes abre os olhos e pondo-se de pé começa a cantarolar uma musica do Ritchie, examina os corpos ao seu redor escolhendo oque gosta em cada rosto, vai até a mesa do legista e come o sanduíche esquecido por ali, ainda indecisa puxa algumas gavetas preenchidas com carne humana e vê algo que lhe agrada. Sai do local, olhar pela ultima vez o reflexo daquele rosto no vidro escuro da porta, e adere sua nova forma.

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